Tem gente que muda de bairro, de cidade, até de país. Eu, recentemente, mudei de palco. Depois de mais de duas décadas atendendo, orientando e discutindo assistência social olho no olho, em salas de atendimento, auditórios, bancas e reuniões técnicas, resolvi que era hora de levar essa conversa para outro endereço: o digital. Sem caminhão de mudança, mas com uma sensação bem parecida com a de abrir a porta de uma casa nova: tudo familiar, e ao mesmo tempo, tudo por organizar de novo.
A primeira coisa que descobri é que migrar para o digital não é reinventar a roda. Ninguém pediu para eu me tornar outra pessoa depois de 27 anos de carreira, um mestrado, um livro, um e-book publicado e um prêmio nacional de artigo jurídico (Fiocruz/MDS) — sobre a atuação do(a) advogado(a) no Sistema Único de Assistência Social (Suas), assunto que, convenhamos, não poderia ser outro. O que muda é o palco, não o repertório. E repertório, cá entre nós, é a única coisa que não se resolve com um bom wi-fi.
A segunda descoberta foi mais filosófica e menos confortável. Durante anos, minha “métrica de impacto” era o número de pessoas atendidas ou que me ouviam em uma sala. Hoje, é o número de pessoas que talvez eu nunca vá conhecer pessoalmente, mas que estão lendo isso num intervalo do trabalho, tentando entender uma lei ou decidindo se vale a pena investir numa formação sobre o Suas. É estranho perder o contato visual e, ainda assim, sentir que o alcance aumentou. Um pouco como gritar num vale e descobrir que o eco chegou muito mais longe do que a sua voz jamais chegaria sozinha.
Confesso que resisti um bocado antes de aceitar que técnica e algoritmo podem, sim, conviver na mesma frase sem que uma desminta a outra. Passei anos construindo autoridade da forma mais lenta possível: caso a caso, lei estudada, desafio superado. Agora preciso construir a mesma coisa em formato de post, carrossel, vídeos e blog, sem abrir mão da profundidade que a assistência social exige. O desafio não é falar sobre o Suas de forma simples. É falar de forma simples sem mentir sobre o quanto isso é complexo.
E aqui vai a parte que mais me diverte nessa mudança: descobrir que experiência não perde validade só porque muda de formato. Vinte e sete anos de chão não viram currículo engavetado quando você entra numa rede social, viram, na verdade, o único diferencial que ninguém consegue copiar da noite para o dia. Quem tenta parecer especialista compete com algoritmo. Quem é especialista de verdade só precisa aparecer.
Se assistência social, Suas, o direito e as políticas públicas fazem parte da sua rotina como profissional, estudante, gestor(a) ou simplesmente como alguém que se interessa pelo tema, sejam bem-vindos(as) a minha casa. A mudança já aconteceu. Falta só organizar as caixas e continuar essa conversa, cada vez com mais gente. Ana Paula Flores, 30 de setembro de 2026.


